Na próxima semana, o Cedeplar e a Universidade Federal de Minas Gerais receberão a visita de dois importantes pesquisadores da obra de Karl Marx, o Dr. Rolf Hecker e o Dr. Carl-Erich Vollgraf. Ambos participam do grupo responsável pela edição da Marx-Engels - Gesamtausgabe (a MEGA²), projeto que pretende publicar a íntegra das obras, correspondência, manuscritos inéditos e cadernos de excertos assinados por Marx e Engels.

Na segunda-feira, dia 4 de setembro, os dois pesquisadores participarão de uma reunião de trabalho com integrantes do grupo de pesquisa em Economia Política Contemporânea do Cedeplar-UFMG.

Na manhã de terça-feira, dia 5 de setembro, eles apresentarão um seminário aberto ao público sobre as novas perspectivas que a edição da MEGA2 vem oferecendo para a compreensão do pensamento de Marx. Rolf Hecker vai apresentar a relação entre os manuscritos de Marx sobre a crise de 1857, recém-publicados no volume IV.14 da MEGA2, e a elaboração da crítica da economia política. Carl-Erich Vollgraf, por sua vez, vai discutir os trabalhos de pesquisa desenvolvidos por Marx após a publicação do Livro I de O Capital com vistas à revisão daquele volume e a redação do restante da obra.

O seminário acontecerá a partir das 10 horas, no auditório 1 da FACE-UFMG e contará com tradução simultânea.

Os textos que servirão de referência para a apresentação estão disponíveis para consulta pelos interessados:

Rolf Hecker. Marx‘ Kapitalismuskritik in der Weltwirtschaftskrise 1857.  [versão em inglês]

Carl-Erich Vollgraf. Marx’ weitere Arbeit am Kapital nach Erscheinen von Band 1. Zum Abschluss der II. Abteilung der MEGA².

 

 

 

 

https://www.youtube.com/watch?v=wQEu3ohoRuY

https://www.youtube.com/watch?v=-4mKfG1RuUc

TeseSocialização da natureza e alternativas de desenvolvimento da Amazônia brasileira
Autor: Harley Silva
Orientador: Roberto Luís de Melo Monte-Mór
Defesa em 8 de maio de 2017, no Programa de Pós-graduação em Economia do Cedeplar

Pouca gente sabe, mas há muito tempo, em Belém, capital do Pará, muito antes de virar moda no resto do Brasil e no exterior, o açaí (mais precisamente, o caldo grosso da polpa da fruta) é comido cotidianamente com farinha de mandioca e uma carne frita, que pode ser de peixe, frango ou boi. O pequeno fruto roxo – cultivado principalmente no Pará, no Amazonas e no Amapá – é, na verdade, um item corriqueiro da alimentação regional popular, herança de populações indígenas que já o plantavam e consumiam havia quase dois milênios, pelo menos.

O desconhecimento sobre a história e os hábitos regionais relacionados ao açaí, que ampliou sua fama depois que começou a ser exportado, suscita reflexões sobre o desperdício de oportunidades de se tirar partido do conhecimento e das práticas do cotidiano para incrementar as economias locais, inclusive por meio da exportação. Em tese defendida na Faculdade de Ciências Econômicas, o economista e historiador Harley Silva descreve as origens e o funcionamento da economia do açaí para propor alternativas de desenvolvimento que explorem, sem destruir, ambientes como a floresta tropical.

"A natureza é uma força produtiva com a qual perdemos grande parte do nosso vínculo. As monoculturas na Amazônia derrubam grandes porções de floresta sem que se saiba o que se está perdendo", afirma o pesquisador. "Há uma riqueza imensa que poderia ser inserida na vida econômica. Mas isso exige que se olhe para o patrimônio natural de maneira bem informada, não apenas sob o viés científico. É preciso respeitar e escutar as populações locais."

Domesticada pelos povos pré-colombianos há pelo menos mil anos, a palmeira do açaí, nativa da Amazônia, passou a ser fonte de alimento das populações ribeirinhas, e o hábito do consumo chegou a Belém, no bojo do grande crescimento da capital paraense, fomentado em grande parte pela migração, sobretudo na década de 1970.

Mediação urbana
Harley Silva, que foi orientado pelo professor Roberto Monte-Mór, dedica parte significativa do seu trabalho a demonstrar o papel da cidade na consolidação da economia do açaí. "A cultura começou a ser consolidada, por exemplo, com o aperfeiçoamento da despolpadeira (que separa a polpa do caroço) e com a formação de uma rede de distribuição popular formada por pequenas lojas, nos bairros populares de Belém", explica Harley, que passou um mês na capital paraense realizando entrevistas, aplicando questionários e observando os diversos aspectos da economia do açaí.

O economista salienta que mesmo os povos antigos já se reuniam em grandes grupos na floresta, onde não apenas se amontoavam, mas reuniam e transmitiam conhecimentos sobre a biodiversidade. "Esses povos cultivaram e intervieram na floresta, ao longo de milhares de anos. Também por isso, não faz sentido falar em natureza intocada, nos moldes do discurso ambientalista focado apenas nas noções de conservação e proteção", diz o pesquisador.

Na tese, ele enfatiza a capacidade da vida urbana de articular e enriquecer a relação das populações com seus recursos naturais. Como base teórica, o pesquisador recorre a autores como Henri Lefebvre, que, segundo Harley, "resgata a vitalidade do urbano, que parecia ter sido completamente decomposto pela industrialização", e Jane Jacobs, que define as cidades densas e diversas "como o lugar onde a economia se dá, por meio da elaboração de respostas para as necessidades cotidianas".

Sem dependência externa
Para Harley Silva, a economia do consumo urbano da polpa do açaí em Belém é exemplo de processo virtuoso, baseado na articulação de recursos da biodiversidade com o mercado e em relações sociais regionais e técnicas de produção e processamento endógenas. "A economia do açaí não depende exclusivamente da mobilização externa, como se deu com produtos como a borracha", ressalta o autor.

Por meio da ideia de socialização da natureza, o autor da tese demonstra "possibilidades de ampliação e enriquecimento do universo econômico, sem a mediação necessária da industrialização capitalista", que tem capacidade limitada para funcionar em contextos marcados pela diversidade natural e social, como ressaltou nas considerações finais de sua tese.

Ainda de acordo com o pesquisador, o acesso à "enorme diversidade da Amazônia" – e isso vale também para o cerrado e o que resta de Mata Atlântica – pode abrir portas para o desenvolvimento baseado na plataforma urbana e em cadeias de atividades e processos que envolvem e beneficiam estratos diversos da população.

"Um dos obstáculos ao desenvolvimento, no Brasil, é a baixa capacidade da nossa sociedade de olhar para si mesma de forma mais generosa e cuidadosa", ressalta Harley Silva. "Não nos levamos a sério porque nos consideramos exóticos e precisamos parecer com os países centrais. E os interiores do Brasil estão cheios de açaís, recursos naturais que podem sustentar um desenvolvimento capaz de garantir a existência das florestas", afirma.

(Itamar Rigueira Jr. / Boletim 1987)